Descolonização na Ásia

Vamos explicar o que foi o processo de descolonização na Ásia. Além disso, suas causas e história.

A descolonização na Ásia ocorreu principalmente após a Segunda Guerra Mundial.

O que foi a descolonização na Ásia?

A descolonização na Ásia foi um processo que levou à independência das antigas colônias europeias no continente asiático. A maioria das independências ocorreu depois da Segunda Guerra Mundial, especialmente no final da década de 1940 e nas décadas de 1950 e 1960.

A descolonização deveu-se ao impulso dos movimentos nacionalistas das colônias asiáticas, cujos líderes muitas vezes receberam uma educação ocidental. Estes movimentos foram muito ativos desde a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), e ampliaram sua pressão independentista depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), quando a França e a Grã-Bretanha demonstraram que não eram potências invencíveis.

Os primeiros territórios asiáticos que se emanciparam depois da Segunda Guerra Mundial, em 1945, foram os que haviam sido ocupados pelos japoneses entre 1941 e 1942, embora sua consolidação e reconhecimento tenha levado alguns anos.

No Oriente Médio, as independências começaram em 1946 (com a exceção do Iraque que a obteve em 1932), e a principal colônia britânica (a Índia) se tornou independente em 1947. As outras posses europeias na Ásia foram acedendo à independência em um processo que, em alguns casos (como o da Indochina), se vinculou com os conflitos da Guerra Fria.

PONTOS IMPORTANTES

  • A descolonização na Ásia foi um processo de independência das diferentes colônias onde a Europa exercia o seu poder.
  • O processo de descolonização se estendeu desde o final da década de 1940 (após a Segunda Guerra Mundial) até o final de 1960.
  • As principais causas que levaram à descolonização foram:
    • A fraqueza econômica que a Europa passou depois da guerra.
    • A oposição das duas superpotências (Estados Unidos e União Soviética) à antiga ordem colonial europeia.
    • O confronto cada vez mais profundo entre os movimentos ligados ao comunismo (apoiados pela União Soviética ou pela China Comunista) e os alinhados com o capitalismo ocidental (apoiados pelos Estados Unidos).

Causas da descolonização na Ásia

A manutenção dos impérios coloniais com presença na Ásia e na África (britânico, francês, holandês, espanhol e português) começou a se tornar insustentável após a Segunda Guerra Mundial. Os governos europeus tiveram de aceitar as reivindicações dos movimentos independentistas por uma série de razões:

  • Os movimentos nacionalistas, geralmente liderados por líderes formados com ideias ocidentais de liberdade e independência, intensificaram suas reivindicações devido ao desprestígio que haviam sofrido os governos europeus durante a guerra (como a França e o Reino Unido, que dependiam da intervenção dos Estados Unidos e da União Soviética para derrotar a Alemanha nazista).
  • As reivindicações independentistas ganharam legitimidade devido à participação de algumas tropas coloniais nos exércitos aliados durante a guerra (como as forças indianas no exército britânico).
  • A fraqueza econômica da Europa após a devastação da guerra levou as nações europeias a concentrar os seus esforços na sua própria reconstrução interna.
  • As duas superpotências que emergiram da Segunda Guerra Mundial (Estados Unidos e União Soviética) se mostraram contrárias à antiga ordem colonial europeia, e a ONU (Organização das Nações Unidas) encorajou o fim do colonialismo. Esta situação gerou, por outro lado, que algumas lutas pela independência se vinculassem com a Guerra Fria, ou seja, que fossem travadas por movimentos afins ao comunismo (apoiados pela União Soviética ou pela China Comunista) ou alinhados com o capitalismo ocidental (apoiados pelos Estados Unidos).

No entanto, as negociações para a independência não estiveram isentas de episódios de violência e, por vezes, conduziram a guerras violentas. De qualquer forma, o processo foi bastante rápido e, na década de 1960, a maioria das colônias tinha concordado com a independência. Dezenas de novos estados aderiram assim à comunidade internacional.

A independência e a divisão da Índia

O movimento nacionalista indiano

Jawaharlal Nehru aceitou a divisão de dois estados: Índia (hindu) e Paquistão (muçulmano).

O movimento nacionalista da Índia foi um dos mais antigos. A partir de 1885 foi organizado em torno do Partido do Congresso e, depois da Primeira Guerra Mundial, liderado por Mahatma Gandhi, defensor da não violência, que havia realizado estudos universitários na Inglaterra.

Com seu discípulo e logo principal líder político do movimento, Jawaharlal Nehru, Gandhi reclamou insistentemente a independência da Índia em relação ao Império Britânico, mesmo antes do fim da Segunda Guerra Mundial, quando promoveu o movimento Quit India (Abandonem a Índia) em 1942, que provocou a prisão de Gandhi, Nehru e outros militantes nacionalistas britânicos.

A difícil situação econômica da Europa após a Segunda Guerra Mundial e a vitória do Partido Trabalhista no Reino Unido em 1945 (que levou seu líder, Clement Attlee, ao cargo de primeiro-ministro) facilitaram as negociações com os nacionalistas indianos que tiveram início nesse mesmo ano. No entanto, surgiram duas posições opostas: Gandhi e Nehru defenderam a manutenção de um único estado multi-religioso, enquanto que o líder da Liga Muçulmana, Muhammad Ali Jinnah, levantou a divisão da colônia em dois estados, um hindu e um muçulmano.

Após uma série de violentos distúrbios (1946-1947), Nehru finalmente aceitou a divisão. O resultado foi o nascimento, em 15 de agosto de 1947, de dois estados independentes: a União da Índia (depois passou a ser chamada de República da Índia), de maioria hindu e dirigida pelo Partido do Congresso de Nehru, e Paquistão (depois passou a ser chamado República Islâmica do Paquistão), de maioria muçulmana.

As transferências de população hindu e muçulmana através das fronteiras durante o processo de divisão provocaram atos de violência com um saldo de milhares de mortos. A partir daí, a Índia e o Paquistão iniciaram um conflito que continua no século XXI.

A República da Índia

Depois da independência, a Índia, o segundo país mais populoso do planeta, tornou-se “a maior democracia do mundo” (ou seja, o regime democrático com a maior população do mundo). A Constituição de 1950 proclamou uma república federal com liberdades políticas e direito de voto para toda a população adulta.

Além disso, Nehru foi um dos impulsionadores do Movimento de Países Não Alinhados (com Nasser, do Egito, e Sukarno, da Indonésia), que pretendia defender os interesses dos países descolonizados do Terceiro Mundo no contexto da Guerra Fria.

O Partido do Congresso, cuja liderança ficou nas mãos de Nehru e, logo, de sua família, governou desde a independência até a década de 1990. A Jawaharlal Nehru o sucedeu como primeiro-ministro sua filha Indira Gandhi (1966-1977 e 1980-1984) e, após o assassinato desta, seu neto Rajiv Gandhi (1984-1989).

Nehru implementou uma economia controlada pelo Estado, cujos resultados representaram um crescimento de cerca de 3 % do PIB, que mal compensava o forte crescimento demográfico.

A situação de estagnação econômica e pobreza, somada a certos atos de corrupção atribuídos ao governo de Rajiv Gandhi, provocou a alternância política nos anos 90, com a derrota eleitoral do Partido do Congresso e a aplicação de reformas econômicas liberalizadas (algumas delas implementadas pelo próprio Partido do Congresso) que elevaram as taxas de crescimento.

A independência da Indonésia

O revolucionário indonésio Sukarno proclamou a independência em 1945, embora tenha sido reconhecida somente em 1949.

Durante a Segunda Guerra Mundial, o Império do Japão derrotou e expulsou os holandeses de sua colônia na Indonésia (até então chamada de Índias Orientais Neerlandesas) em 1942. Neste contexto, ganhou força o movimento nacionalista liderado pelo revolucionário indonésio Sukarno, que havia se educado em institutos neerlandeses na colônia e havia sido enviado ao exílio por sua atitude anticolonial.

Com a chegada das tropas japonesas em 1942, Sukarno foi libertado do seu exílio. Três anos depois, quando essas tropas se renderam aos aliados, os nacionalistas indonésios proclamaram a independência do país, em 17 de agosto de 1945.

Uma vez terminada a Segunda Guerra Mundial, o governo dos Países Baixos tentou duas vezes retomar o controle do arquipélago pela força, entre 1947 e 1948. À resistência indonésia somaram-se as pressões da ONU e dos Estados Unidos (o governo dos Estados Unidos chegou a ameaçar retirar dos Países Baixos a ajuda do Plano Marshall, um programa de assistência à recuperação econômica dos países europeus, após a devastação da guerra).

Esta situação levou, no final de 1949, a Indonésia a obter a sua independência sob a presidência de Sukarno, reconhecida pelo governo neerlandês. A Indonésia se constituiu em uma república democrática, mas durante a década de 1950 foi afetada pela instabilidade política, o que levou a um modelo de governo autoritário que encabeçou Sukarno com o nome de “democracia dirigida”. Em 1967, Sukarno foi deposto e substituído pelo general Suharto, que governou a Indonésia até 1998.

As guerras da Indochina e da Coreia

A guerra da Indochina terminou com a derrota francesa diante da guerrilha comunista do Vietnã.

A Indochina (Vietnã, Laos e Camboja) fez parte do Império Francês desde a segunda metade do século XIX. A Coreia caiu sob o controle japonês em 1907, oficialmente anexada ao Império do Japão, em 1910. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, o processo descolonizador em ambos os países foi confundido com os conflitos da Guerra Fria.

O líder do Vietminh (guerrilha nacionalista e comunista do Vietnã), Ho Chi Minh, proclamou a independência do Vietnã em setembro de 1945 e isso provocou uma guerra com o exército francês entre 1946 e 1954. Com o apoio da China Comunista, o Vietminh conseguiu derrotar os franceses, que foram definitivamente vencidos na Batalha de Dien Bien Phu (1954).

O resultado da guerra da Indochina foi a assinatura dos Acordos de Genebra, que concordaram em independizar o Laos e o Camboja e dividir o Vietnã em dois estados: Vietnã do Norte (comunista), governado por Ho Chi Minh, e Vietnã do Sul (pró-ocidental), que, a partir deste momento, foi apoiado pelos Estados Unidos.

A partir de 1955, eclodiu uma nova guerra entre o norte e o sul, na qual os Estados Unidos se envolveram cada vez mais: primeiro enviou assessores e logo tropas para combater o avanço do comunismo na região. O resultado da Guerra do Vietnã foi o triunfo dos comunistas em 1975 e a unificação do Vietnã sob um só governo socialista.

Na Coreia, a derrota japonesa de 1945 provocou a divisão deste país em duas áreas, a norte, sob influência da União Soviética, e a sul, sob influência dos Estados Unidos. Mas, a invasão do sul pelo governo da Coreia do Norte em 1950 provocou uma guerra que durou até 1953. As tropas americanas se envolveram apoiando a Coreia do Sul, enquanto a União Soviética e a China apoiaram a Coreia do Norte. O resultado foi um armistício que ratificou a separação entre dois estados.

Os tigres asiáticos

A descolonização dos “tigres asiáticos”

Dois pequenos países (Coreia do Sul e Taiwan) e duas cidades (Singapura e Hong Kong) protagonizaram um importante desenvolvimento econômico desde o início dos anos 60. A Coreia do Sul se tornou uma república independente em 1948, embora tenha passado pela Guerra da Coreia entre 1950 e 1953.

Taiwan se tornou independente do Império do Japão em 1945 e passou a fazer parte da República da China. No entanto, após a derrota do exército nacionalista do Kuomintang contra as tropas comunistas lideradas por Mao Tsé-Tung em 1949, o Partido Comunista Chinês instaurou a República Popular da China e os nacionalistas recuaram em Taiwan, onde estabeleceram a sua própria república.

Singapura era uma colônia britânica que ficou nas mãos dos japoneses em 1942 e voltou ao controle britânico em 1945. Tornou-se independente em 1963 por se ter tornado membro da Federação da Malásia e, em 1965, separou-se desta federação para se tornar a República de Singapura.

Hong Kong era uma colônia britânica, que foi ocupada pelo Japão em 1941 e recuperada pelo Reino Unido em 1945, até que foi cedida à República Popular da China, em 1997. Desde então, trata-se de uma região administrativa especial sob a soberania chinesa, mas com um grau significativo de autonomia.

Economia e política dos “tigres asiáticos”

À excepção de Hong Kong, o crescimento econômico destas regiões, a partir da década de 1960, baseou-se em uma rápida industrialização, que combinou a intervenção estatal, o espírito empresarial, a promoção das exportações, a elevada produtividade, a abundância de mão-de-obra e um elevado nível de economia da população.

Estes territórios abandonaram a condição de países subdesenvolvidos e passaram a pertencer à lista de países industrializados e, por isso, foram conhecidos como os quatro “tigres asiáticos”. O desenvolvimento econômico não correspondeu a uma democratização dos sistemas políticos.

Na Coreia do Sul, embora formalmente fosse uma república, governou uma ditadura liderada pelo general Park Chung-hee entre 1961 e 1979, que se prolongou até 1987 (quando se reformou a constituição). Em Taiwan, o general Chiang Kai-Chek governou como presidente até 1975, por isso alguns o caracterizam como um ditador. Só em 1992 se realizaram as primeiras eleições livres na ilha.

Singapura foi governada autoritariamente desde antes da independência em 1965 e até 1990 pelo político Lee Kuan-Yew, e Hong Kong deixou de ser colônia britânica somente em 1997.

As independências no Oriente Médio

No período entre guerras, o Reino Unido reconheceu a independência de alguns países árabes, como o Egito (na África) e o Iraque (na Ásia). Em 1946, depois da Segunda Guerra Mundial, houve independência nos territórios do Levante mediterrâneo, que tinham estado sob a autoridade do Reino Unido e da França: Síria, Transjordânia (depois chamada de Jordânia) e Líbano.

O Mandato Britânico da Palestina terminou em maio de 1948, com a criação do Estado de Israel. Anteriormente, haviam ocorrido conflitos entre as populações judaicas e muçulmanas da região, o que levou a ONU a aprovar, em 1947, um plano de divisão do território entre um estado judeu e um estado árabe.

Uma vez proclamada a independência do Estado de Israel, em 14 de maio de 1948, uma coalizão árabe (Egito, Transjordânia, Síria, Líbano e Iraque) invadiu o território do novo Estado e assim começou a primeira guerra árabe-israelense, que terminou em julho de 1949, com a vitória israelense. Este resultado consolidou a posição do Estado de Israel, que continuou a receber imigrantes judeus, enquanto milhares de palestinos se tornaram refugiados, mas não parou os conflitos árabe-israelenses na região, que continuaram no século XXI.

A descolonização em outros países da Ásia

Outros países que se tornaram independentes durante o processo de descolonização na Ásia foram:

  • Filipinas (1946), que tinha sido colonizada pelos Estados Unidos.
  • Birmânia (1948), que tinha sido uma colônia britânica.
  • Sri Lanka (1948), que era chamado de Ceilão durante o domínio britânico.
  • Malásia (1963), que era composta por antigas colônias britânicas.
  • Timor Leste (1975), que era colônia portuguesa que, após a independência, foi ocupada pela Indonésia, até que a sua independência foi novamente reconhecida em 2002.

Continue com:

Referências

  • Getz, T. (s.f.). Political Decolonization, c.1945-1997. Khan Academy. https://www.khanacademy.org/ 
  • Metcalf, B. y Metcalf, T. (2014). Historia de la India. Tercera edición. Akal.
  • Springhall, J. (2001). Decolonization since 1945. The Collapse of European Overseas Empires. Red Globe Press.

Como citar?

As citações ou referências aos nossos artigos podem ser usadas de forma livre para pesquisas. Para citarnos, sugerimos utilizar as normas da ABNT NBR 14724:

GAYUBAS, Augusto. Descolonização na Ásia. Enciclopédia Humanidades, 2024. Disponível em: https://humanidades.com/br/descolonizacao-na-asia/. Acesso em: 7 junho, 2024.

Sobre o autor

Autor: Augusto Gayubas

Doutor em História (Universidad de Buenos Aires)

Traduzido por: Cristina Zambra

Licenciada em Letras: Português e Literaturas da Língua Portuguesa (UNIJUÍ)

Data da última edição: 18 fevereiro, 2024
Data de publicação: 13 janeiro, 2024

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