Conflito árabe-israelense

Vamos explicar as causas do confronto entre árabes e judeus pela criação do Estado de Israel. Além disso, o papel da ONU.

Desde o período entre guerras, judeus e árabes têm lutado pelo território da Palestina.

O que é o conflito árabe-israelense?

O confronto entre a nação judaica do Estado de Israel e as nações árabes vizinhas é conhecido como o conflito árabe-israelense. O conflito tem suas origens na disputa pelo território da Palestina, que anteriormente pertencia ao Império Otomano e depois ao Mandato Britânico da Palestina. Entre as principais guerras do conflito estão a Primeira Guerra Árabe-Israelense (1948–1949), a Guerra dos Seis Dias (1967) e a Segunda Guerra Árabe-Israelense (1973).

Durante a segunda metade do século XX, o conflito entre judeus e árabes afetou as relações políticas em todo o Oriente Médio. A origem do conflito está ligada ao surgimento do sionismo político pregado por Theodor Herlz no final do século XIX, ao crescimento do nacionalismo judeu e do nacionalismo árabe, à emigração da população judaica de diferentes partes do mundo para a Palestina, à intervenção estrangeira do Reino Unido e à influência das Nações Unidas.

Histórico do conflito árabe-israelense

Origem do sionismo político

No final do século XIX, um escritor austro-húngaro de origem judaica chamado Theodor Herzl (1860–1904) começou a pregar a ideia de que a população judaica dispersa na Europa deveria retornar a Israel, considerada a pátria ancestral dos judeus.

No século II d.C., após uma série de rebeliões, Israel foi derrotado pelo Império Romano e perdeu sua independência como reino autônomo. A partir de então, a população judaica se dispersou por diferentes territórios. O exílio dos judeus de Israel é conhecido como a “diáspora”.

Frente a discriminação e à perseguição que algumas comunidades judaicas sofreram na Europa no final do século XIX, Herlz defendia que a população judaica deveria imigrar para a terra de Israel, que na época fazia parte da região da Palestina do Império Otomano. Essa região foi habitada durante séculos por populações de origem árabe de fé cristã e muçulmana. Havia também uma pequena comunidade judaica na cidade de Jerusalém.

Em 1897, Herlz fundou a Organização Sionista Mundial (OSM), cujo objetivo era conquistar o direito dos judeus de viver em Israel. Para isso, a OSM buscou fortalecer o sentimento nacionalista judaico, estabelecer as bases para a colonização judaica da região por meio da imigração pacífica e obter o reconhecimento internacional da reivindicação da nação judaica à terra. Esse movimento é conhecido como “sionismo político”.

No início do século XX, comunidades de judeus europeus começaram a migrar para a região da Palestina. Durante essa primeira etapa, a migração foi pacífica e gradual.

O Acordo Sykes-Picot

Durante a Primeira Guerra Mundial (1914–1918), o Império Otomano se aliou ao Império Alemão e ao Império Austro-Húngaro (“as Potências Centrais”) contra a França, o Reino Unido e a Itália (“os Aliados”). Em 1916, os Aliados assinaram o Acordo Sykes-Picot, que previa a divisão das possessões otomanas caso ganhassem a guerra.

No entanto, o futuro do Oriente Médio tornou-se ainda mais complexo, pois os Aliados fizeram promessas aos árabes em troca de sua revolta contra o Império Turco, promessas que, por sua vez, eram contraditórias com o que foi oferecido aos judeus na Declaração de Balfour.

No final da guerra, na Conferência de Paris (1919), as potências aliadas optaram por dividir os territórios entre britânicos e franceses e implementar uma organização política de “mandatos”. Dessa forma, a antiga região da Palestina tornou-se oficialmente o Mandato Britânico da Palestina.

A Declaração de Balfour

No contexto da guerra, vários agentes britânicos incentivaram rebeliões internas no Império Otomano, com o intuito de desestabilizar a política interna do Estado e enfraquecer seu poder nas frentes de batalha. O governo britânico procurou criar alianças com a população local descontente para se beneficiar no decorrer da guerra.

Em 1917, o ministro das Relações Exteriores britânico, Arthur Balfour, declarou que o Reino Unido apoiava o estabelecimento de “um lar nacional” para o povo judeu na região da Palestina. Essa declaração foi um marco importante para o movimento sionista, pois uma potência legitimou suas reivindicações ideológicas e políticas internacionalmente.

O Mandato Britânico da Palestina

No final da Primeira Guerra Mundial, o Império Otomano foi dissolvido e as potências aliadas definiram a criação do Mandato Britânico da Palestina. Durante a década de 1920, a população judaica nos territórios do Mandato da Palestina dobrou.

A OSM promoveu a imigração e obteve importantes concessões do governo britânico. Por exemplo, por meio da Agência Judaica para a Palestina (uma nova organização local), a comunidade judaica obteve certas prerrogativas de autogoverno que foram fundamentais para o crescimento de seus assentamentos (como a construção de ruas, a instalação de serviços, a criação de escolas e hospitais).

Inicialmente, os colonos judeus e a população árabe local viviam em paz. Contudo, o governo britânico havia feito promessas contraditórias a ambos os grupos durante a guerra. O nacionalismo da população árabe e suas reivindicações pela prometida independência cresceram paralelamente ao aumento da população judaica.

Durante a década de 1930, a tensão entre ambos os povos começou a se transformar em um confronto direto. Entre 1936 e 1939, as revoltas nacionalistas de ambos os lados se intensificaram. A repressão das autoridades britânicas levou ao exílio a maioria dos líderes árabes palestinos.

A criação do Estado de Israel

No início da década de 1940, os conflitos entre a população árabe, a população judaica e as autoridades britânicas se tornaram generalizados. O Reino Unido não conseguiu cumprir suas promessas contraditórias de independência para árabes e judeus e resolveu, em 1947, abrir mão de seu mandato na Palestina para as Nações Unidas (criada em 1945). Recomendou a criação de dois estados separados com o acordo de ambas as nações.

Essa instabilidade política levou ao aumento da agitação e da violência. Depois de vários meses, em 29 de novembro de 1947, a ONU resolveu criar um Plano de Partilha da Palestina. Esse plano dividiu o território em três partes: o Estado judeu, o Estado árabe e a cidade de Jerusalém (que permaneceria sob o controle da ONU).

Contudo, essa divisão era conflitante: o Estado de Israel incluiria 55% do território, com uma população de 500 mil judeus e 400 mil árabes palestinos. Por outro lado, o Estado da Palestina incluiria 44% do território, com uma população de mais de 800 mil árabes palestinos e uma pequena minoria de 10 mil judeus. A Liga Árabe (que reúne os principais Estados árabes) rejeitou a proposta.

David Ben-Gurion (um dos principais líderes sionistas) proclamou a Declaração de Independência de Israel em 14 de maio de 1948, um dia antes da retirada das tropas britânicas da Palestina.

No dia 15 de maio, uma coalizão de exércitos árabes do vizinho Egito, da Transjordânia, da Síria, do Líbano e do Iraque atacou o recém-criado Estado de Israel. Assim começou a Guerra Árabe-Israelense de 1948, a primeira das guerras que marcaram o conflito árabe-israelense mais amplo.

A Primeira Guerra Árabe-Israelense (1948–1949)

No dia 14 de maio de 1948, o líder judeu David Ben Gurion proclamou a independência do Estado de Israel nos territórios designados pela ONU. A reação árabe foi imediata: quando os britânicos deixaram a Palestina em 15 de maio, tropas egípcias, transjordânicas, sírias, libanesas e iraquianas atacaram o recém-nascido Estado hebreu.

Apesar da disparidade numérica, a Primeira Guerra Árabe-Israelense (maio de 1948 a julho de 1949) terminou com a vitória israelense. O novo Estado judeu passou a ocupar 78% da antiga Palestina, em vez dos 55% atribuídos pela divisão da ONU. Os territórios árabes fora de seu controle foram anexados por Estados árabes vizinhos: a Faixa de Gaza foi tomada pelo Egito, e a Cisjordânia e a antiga cidade de Jerusalém foram tomadas pelo reino da Transjordânia.

A população palestina foi expulsa em massa dos territórios israelenses e teve de se refugiar nos países vizinhos. Por outro lado, o Estado de Israel foi consolidado pelo fluxo contínuo de imigrantes judeus e pela consolidação das Forças de Defesa de Israel, que foram modernizadas nos anos seguintes.

A Crise de Suez (1956)

Quando Gamal Abdel Nasser se tornou presidente do Egito, em 1954, ele adotou uma política nacionalista que levou, em 1956, à nacionalização da Companhia do Canal de Suez (que controlava o tráfego entre o Mediterrâneo e o Mar Vermelho), anteriormente nas mãos de acionistas britânicos e franceses. Esse episódio provocou uma crise internacional, e os governos britânico e francês contaram com o apoio do Estado de Israel para invadir a península do Sinai.

O governo dos Estados Unidos condenou a invasão do Sinai e as tropas invasoras se retiraram, enquanto uma força de paz da ONU ocupou a península para evitar futuros conflitos entre egípcios e israelenses. A figura de Nasser cresceu em popularidade no mundo árabe, pois a retirada dos Aliados foi vista como uma vitória diplomática egípcia.

Após a Crise de Suez, o governo egípcio e outros países árabes fortaleceram seus laços com a União Soviética (URSS), enquanto Israel se tornou aliado estratégico dos Estados Unidos na região. A dinâmica política do Oriente Médio tornou-se parte do confronto global da Guerra Fria.

A Guerra dos Seis Dias (1967)

Em seis dias, o exército israelense derrotou as tropas da coalizão árabe.

Após o sucesso diplomático de 1956, e com o apoio militar soviético, Nasser multiplicou suas ações ameaçadoras contra Israel. Em maio de 1967, navios egípcios bloquearam o golfo de Aqaba, a sudeste da península do Sinai, impedindo o tráfego do porto israelense de Eilat para o Mar Vermelho e o oceano Índico.

A resposta militar israelense foi, em 5 de junho de 1967, um ataque simultâneo aos países árabes que cercavam o Estado de Israel, o que desencadeou a Guerra dos Seis Dias.Em seis dias, o exército israelense ocupou as Colinas de Golã na Síria, a península do Sinai no Egito e a Faixa de Gaza, a Cisjordânia e a Cidade Velha de Jerusalém nos territórios palestinos.

Aliado aos Estados Unidos, que temiam a aliança do Egito e da Síria com a União Soviética, Israel dessa vez se recusou a devolver os territórios ocupados. Também proclamou unilateralmente a reunificação de Jerusalém ao anexar Jerusalém Oriental. Tudo isso levou a uma nova onda de palestinos se refugiando em países vizinhos.

A Organização para a Libertação da Palestina

Após a derrota árabe em 1967, a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), criada em 1964, tornou-se, sob a liderança de Yasser Arafat, a principal organização do povo palestino que vivia sob ocupação israelense ou em campos de refugiados em países vizinhos. Quando a meta de Nasser de obter uma vitória militar convencional sobre o Estado israelense fracassou, a OLP iniciou uma guerra de guerrilha contra Israel.

Da Jordânia, os guerrilheiros da Al Fatah (Conquista), a organização da OLP liderada por Arafat e majoritária, lançaram ataques contra Israel. O exército israelense respondeu com represálias severas. Ao mesmo tempo, dentro da Jordânia, o poder crescente das organizações palestinas ameaçava a estabilidade da monarquia jordaniana, de modo que o rei Hussein usou seu exército para expulsar, em setembro de 1970, grande parte dos refugiados e combatentes da OLP, que fugiram para o Líbano.

Do Líbano, a OLP continuou seus ataques contra Israel. A chegada em massa de palestinos também perturbou o equilíbrio entre cristãos, drusos, muçulmanos xiitas e muçulmanos sunitas, o que levou a uma guerra civil em 1975. Posteriormente, as forças armadas de Israel e da Síria também se envolveram.

Israel ocupou o sul do Líbano em 1978 e bombardeou Beirute (capital do Líbano) em 1982, o que levou à Guerra do Líbano (1982–1985). Durante esse conflito, nasceu a organização islâmica xiita Hezbollah, também influenciada pela Revolução Iraniana de 1979. Finalmente, o exército israelense conseguiu fazer com que os guerrilheiros da OLP deixassem o Líbano. Entretanto, a guerra civil continuou até 1990 e terminou com um país em ruínas sob a hegemonia síria.

A Segunda Guerra Árabe-Israelense (1973)

Após a morte de Nasser em 1970, ele foi sucedido na presidência do Egito por Anwar el-Sadat, quem começou a se preparar com o governo sírio para uma nova guerra para recuperar os territórios perdidos pelos países árabes na Guerra dos Seis Dias.

No dia 6 de outubro de 1973, tropas egípcias e sírias aproveitaram a festa religiosa judaica do Yom Kippur e lançaram um ataque surpresa contra Israel na península do Sinai e nas colinas de Golã. Teve início a Segunda Guerra Árabe-Israelense (também conhecida como Guerra do Yom Kippur ou Guerra do Ramadã), na qual os primeiros avanços árabes foram posteriormente combatidos pelas forças armadas israelenses.

Após 16 dias de combates, as duas superpotências da Guerra Fria, que haviam apoiado seus respectivos aliados com armas (os Estados Unidos para Israel e a União Soviética para o Egito e a Síria), buscaram uma solução para o conflito. Em 25 de outubro de 1973, as hostilidades cessaram.

A Guerra do Yom Kippur teve repercussões na economia mundial, pois os países árabes da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) restringiram as exportações de petróleo para os países ocidentais que haviam apoiado Israel entre 1973 e 1974, o que provocou o aumento dos preços do petróleo e reduziu a atividade econômica nas nações industrializadas (esse fenômeno ficou conhecido como a “Crise do Petróleo”).

A “Crise do Petróleo” de 1973

Uma das principais consequências do conflito árabe-israelense no âmbito internacional foi a crise econômica que ocorreu em 1973, após a Segunda Guerra Árabe-Israelense, conhecida como a “Crise do Petróleo”. Naquele ano, a Organização dos Países Árabes Exportadores de Petróleo (OPEP) decidiu não exportar petróleo para os países que haviam apoiado o Estado de Israel durante a Segunda Guerra Árabe-Israelense.

Essa decisão afetou profundamente os países ocidentais mais industrializados, pois provocou o aumento do preço do petróleo, levando ao aumento da inflação e à redução da atividade econômica. Por sua vez, esse fato desestabilizou profundamente a economia internacional e fez com que esses países adotassem políticas permanentes de longo prazo para se tornarem cada vez menos dependentes do petróleo árabe.

A paz entre Egito e Israel (1979)

Os Acordos de Camp David permitiram que o Egito e Israel assinassem um acordo de paz.

Uma das consequências da Guerra do Yom Kippur foi a abertura de um processo de paz entre Anwar el-Sadat (presidente do Egito) e Menachem Begin (presidente de Israel), mediado pelo governo dos Estados Unidos, que culminou com a assinatura dos Acordos de Camp David (1978) e do tratado de paz entre Israel e Egito (1979).

O tratado de paz estabeleceu relações diplomáticas entre os dois países e devolveu o controle do Sinai ao Egito. Os territórios palestinos permaneceram sob ocupação israelense. Esses acordos fizeram com que o governo egípcio fosse contestado por outros países árabes e muçulmanos e, em seguida, suspenso da Liga Árabe até 1989.

Em 1981, Sadat, que, além de assinar o tratado de paz com Israel, havia rompido a aliança do Egito com a União Soviética e se aproximado dos Estados Unidos, foi assassinado pela organização egípcia Jihad Islâmica, que se opunha aos acordos com Israel.

Por outro lado, grupos palestinos na Faixa de Gaza e na Cisjordânia iniciaram a primeira Intifada (uma revolta contra Israel devido à crescente ocupação das terras da Cisjordânia por colonos judeus) em 1987.

Em 1993, foram assinados os acordos de paz de Oslo entre o Estado de Israel e a OLP, que reconheceram a legitimidade da Autoridade Nacional Palestina (ANP) como o governo da Cisjordânia e da Faixa de Gaza (desde 2013, a ANP adotou o nome de Estado da Palestina). Não obstante, o conflito israelense-palestino continuou nos anos seguintes com episódios como a segunda Intifada e os conflitos entre o Estado de Israel e o governo da Faixa de Gaza, que passou para as mãos do grupo islâmico Hamas.

Referências

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  • Van Dijk, R., Gray, W. G., Savranskaya, S., Suri, J., & Zhai, Q. (Eds.). (2013). “Israel”. Encyclopedia of the Cold War. Routledge.
  • Britannica, Encyclopaedia (2022). Arab-Israeli wars. Encyclopedia Britannica. https://www.britannica.com/ 
  • Derghougassian, K. (2017). Todo lo que necesitás saber sobre el conflicto en Medio Oriente. Paidós.
  • ONU (s.f.). Historia de la Cuestión de Palestina. Naciones Unidas. La cuestión palestina. https://www.un.org/ 

Como citar?

As citações ou referências aos nossos artigos podem ser usadas de forma livre para pesquisas. Para citarnos, sugerimos utilizar as normas da ABNT NBR 14724:

KISS, Teresa. Conflito árabe-israelense. Enciclopédia Humanidades, 2023. Disponível em: https://humanidades.com/br/conflito-arabe-israelense/. Acesso em: 24 maio, 2024.

Sobre o autor

Autor: Teresa Kiss

Professora de História do ensino médio e superior.

Revisado por: Augusto Gayubas

Doutor em História (Universidad de Buenos Aires)

Traduzido por: Márcia Killmann

Licenciatura em letras (UNISINOS), Doutorado em Letras (Universidad Nacional del Sur)

Data da última edição: 25 fevereiro, 2024
Data de publicação: 16 outubro, 2023

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