Fenícios

Vamos explicar quem foram os fenícios, como era sua religião e a sua sociedade. Além disso, quais são suas características e traços culturais.

Fenicios
As cidades fenícias lideraram o comércio do mar Mediterrâneo entre 2800 e 700 a.C.

Quem foram os fenícios?

Os fenícios eram os antigos habitantes do Levante, na costa oriental do mar Mediterrâneo, região conhecida na época como Canaã. Foram grandes navegadores que estabeleceram rotas comerciais ao longo do Mediterrâneo, do Egeu e do mar Negro. Entre 2800 e 700 a.C., as cidades fenícias de Biblos, Sidón e Tiro conseguiram controlar o comércio da região alternadamente e manter sua autonomia política.

Os fenícios chamavam a si mesmos cananeus, em referência à região que habitavam. Outras civilizações com as quais negociaram deram-lhes outros nomes. Os antigos gregos chamavam de phoínikes (“vermelhos, roxos”), devido aos corantes roxos que comercializavam. Deste vocábulo também deriva o nome púnico que utilizaram os latinos e o nome fenícia que utilizam os especialistas na atualidade.

Algumas características dos fenícios

As principais foram:

  • Habitaram a região do Levante, ao norte da Palestina, entre 2800 e 700 a.C.
  • De suas cidades principais, como Biblos, Sidon e Tiro, controlaram o comércio do mar Mediterrâneo.
  • Fundaram dezenas de colônias e fábricas comerciais nas costas mediterrânicas, deixando uma forte influência no norte da África, no sul da Espanha e no sul da Itália.
  • Mantiveram a independência das suas cidades e formaram alianças comerciais e políticas para se defenderem das outras potências da região.
  • Organizaram sua política e sociedade em torno da atividade comercial, controlada por aristocratas mercadores que formavam conselhos de governo em cada cidade e limitavam o poder dos reis.
  • Influenciaram as culturas da região, ao trocar bens, serviços e ideias entre territórios distantes e populações muito diferentes.
  • Eles criaram um sistema de escrita alfabética que posteriormente foi utilizado pelos gregos e latinos.

A localização geográfica dos fenícios

A civilização fenícia se desenvolveu no litoral leste do mar Mediterrâneo.

Os fenícios se estabeleceram no Levante, um território que se estende ao longo do litoral do Mediterrâneo, entre o mar e os montes do Líbano, desde a foz do rio Orontes, ao norte, até a baía de Haifa, ao sul. Atualmente, este espaço é ocupado pelos países do Líbano, de Israel, da Síria e da Palestina.

A história dos fenícios

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A cidade fenícia de Tiro dominou o comércio mediterrâneo entre 1200 e 700 a.C.

Os especialistas dividem a história dos fenícios em três grandes períodos:

  • 2800-1600 a.C. Nesta época predominou a cidade de Biblos, que tinha relações comerciais com o reino do Egito. O seu apoio permitiu-lhe impor-se e influenciar as outras cidades fenícias. No entanto, acabou por ser submetida ao governo egípcio e perdeu o seu domínio comercial na região.
  • 1600-1200 a.C. A cidade de Sidon adquiriu mais importância e chegou a estender suas rotas comerciais pelo Mediterrâneo, pelo mar Egeu e pelo mar Negro. No final do período, os gregos desalojaram os fenícios do mar Egeu e os povos do mar começaram uma série de ataques à cidade.
  • 1200-700 a.C. Neste período, a cidade de maior preponderância foi Tiro, localizada em uma ilha perto do litoral de Levante. Seus mercadores utilizaram as rotas abertas pelos sidônios e as estenderam: chegaram até o Mediterrâneo ocidental, cruzaram o estreito de Gibraltar e alcançaram as ilhas britânicas. Em seu caminho fundaram colônias comerciais, como Cartago no litoral africano. O crescimento da cidade e seu poder comercial trouxeram disputas internas e os impérios da região começaram a interceder. Isto enfraqueceu a cidade, que acabou por perder a sua autonomia econômica e política e até 700 a.C. ficou sob o domínio dos assírios.

A organização social dos fenícios

Os fenícios tinham uma sociedade estratificada que estava organizada em torno do comércio. A classe mais alta consistia em uma aristocracia das grandes famílias de mercadores e traficantes de escravos. Depois, havia uma classe de comerciantes médios, que se ocupavam das rotas comerciais de menor escala. Os marinheiros e artesãos pertenciam à classe mais baixa da sociedade.

A organização política dos fenícios

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As cidades fenícias criaram alianças para se defenderem dos impérios vizinhos.

Os fenícios nunca tiveram um governo centralizado. Em vez disso, havia um conjunto de cidades-estado que foi tendo maior ou menor nível de influência regional de acordo com sua riqueza e poder político. Estas cidades eram independentes e formaram alianças políticas e comerciais para manter sua autonomia frente ao resto dos reinos e impérios da região.

Cada cidade era conduzida por um rei e acreditava-se que seu poder era de origem divina, no entanto, seu poder não era absoluto: o rei exercia funções militares e econômicas, mas compartilhava o governo com um conselho de anciãos, composto pelos pais das famílias aristocráticas.

Os fenícios não conquistaram os territórios a que chegavam com suas rotas comerciais. Ao contrário, fundaram colônias próprias e fábricas comerciais (enclaves dedicados à produção). Desta forma, desenvolveram uma rede de pontos de apoio, produção e distribuição para suas rotas comerciais.

A economia dos fenícios

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Os fenícios comercializavam óleo, vinho, resina e perfumes em vasos de cerâmica.

A economia fenícia era essencialmente marítima, com uma forte dinâmica de intercâmbio entre suas próprias cidades e com o estrangeiro. Tornaram-se uma potência comercial na região, razão pela qual são considerados os grandes mercadores da antiguidade.

A principal atividade comercial era o tráfico de escravos capturados pelos próprios mercadores ou comprados em mercados locais. Além disso, comercializavam tecidos de seda e de linho, óleo, vinho, resina, perfumes e todo tipo de bens de luxo. Suas rotas conectavam o delta do rio Nilo no Egito com o mar Mediterrâneo, as ilhas do mar Egeu e as cidades da Mesopotâmia asiática.

Também se dedicaram à construção de embarcações, para as quais utilizavam madeira de cedro das florestas do Líbano. Fundaram dezenas de fábricas nas quais predominava o trabalho de metais, como o ouro, a prata e o bronze, e a produção cerâmica, decorada com um corante púrpura que extraíam dos moluscos murce.

As regiões dos fenícios

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A cidade de Biblos dedicou seu templo principal à deusa Astarte.

Os fenícios eram politeístas e adoravam vários deuses. Ainda que cada cidade tivesse seu principal panteão, em todas se praticava o culto a Baal e Astarote, o matrimônio divino que representava o sol e a lua.

Alguns dos deuses principais de sua mitologia eram:

  • Astarote. Deusa principal das cidades de Sidom e Biblos (embora com presença em outras cidades fenícias), era a representação da fecundidade. Também era adorada como deusa da caça, da guerra e padroeira dos navegantes. Chegou a assimilar-se com a Afrodite grega ou a Ísis egípcia, e é representada com um leão, e segurando uma flor de lótus e uma serpente, muitas vezes com os seios nus ou amamentando.
  • Eshmún. Adorado em Sidom e Chipre, e assimilado a Apolo e Esculápio na tradição greco-romana, era um deus curador, em cuja honra se faziam jogos semelhantes aos olímpicos gregos, e cujo vencedor era recompensado com uma tela roxa.
  • Baal. Era uma divindade solar à qual os habitantes da Ásia Menor adoravam, e aqueles povos sobre os quais tinham influência, como o fenício. Era a divindade da chuva e da guerra, e era um dos deuses centrais do culto fenício.
  • Chusor. Deus dos armeiros, ferreiros e pescadores, é suposto ser o primeiro dos navegadores da humanidade e o construtor do primeiro templo a Baal. Além disso, atribuíam-lhe a invenção da pesca, da navegação e da fundição.
  • Hadade. Era o deus fenício do ar, das tempestades e dos relâmpagos, da chuva e do vento. Os fenícios pensavam que era a sua voz que ressoava no meio desses fenômenos.
  • Melkart. Era a divindade fenícia da cidade de Tiro, equivalente a uma versão fenícia de Baal. Foi originalmente um deus agrícola e primaveril, venerado através de rituais do tipo sacrifício e adquiriu na Fenícia um conteúdo marítimo, em um claro exemplo de sincretismo religioso. Seu nome significa "Rei da cidade" e em Tiro foi venerado como tal, considerado também o deus da navegação e sobretudo da colonização.
  • Dagon. Possível sincretismo entre três deuses (um ugarítico: Ben Dagon; um sumério: Dagan e um fenício: Dagon), era uma divindade marítima representada como uma criatura metade homem, metade peixe. No entanto, outras interpretações o associam a vozes agrícolas ("espiga" em hebraico), embora seja talvez um dos poucos deuses nacionais dos filisteus.
  • Moloch. Deus supremo e protetor de Cartago, era uma deidade-touro semelhante ao minotauro. Em homenagem a ele se sacrificavam quatro jovens ao ano, presos em uma estrutura que depois era queimada.

A cultura dos fenícios

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Os fenícios inventaram um alfabeto fonético que formava palavras com vogais e consoantes.

Os principais características culturais dos fenícios foram:

  • Arte e arquitetura. Durante séculos, os fenícios usaram os estilos egípcio e assírio em seus projetos artísticos e arquitetônicos. A produção artística tinha fins comerciais, pelo que as cerâmicas e os ofícios tomaram formas e desenhos das regiões com as quais se comercializava.
  • Escrita. Os fenícios criaram um sistema de escrita alfabética, composto por 22 sinais fonéticos que se diferenciavam em vogais e consoantes e se combinavam para formar palavras. Este sistema era fácil de aprender e usar, tornando-se muito conveniente para uso comercial. Espalhou-se através das rotas e dos enclaves comerciais fenícios e acabou sendo adotado por outros povos, como os gregos e os latinos, que o tomaram como base para seus próprios sistemas de escrita.
  • Exploração marítima. Ao longo de sua história, os fenícios expandiram suas rotas comerciais para espaços marítimos cada vez mais distantes. Neste sentido, foi fundamental a fundação de colônias, que lhes permitiu assegurar portos e depósitos de mercadorias. Viajavam pelo Mediterrâneo entre março e outubro e utilizavam duas rotas distintas (a do sul, ao longo do litoral africano e a do norte, entre as ilhas do Egeu).
  • Intercâmbio econômico. Para as trocas comerciais, os fenícios tinham diferentes métodos: negociavam diretamente dos navios aos portos aos quais chegavam, desembarcavam na praia e negociavam com os habitantes do local ou descarregavam as mercadorias na praia e esperavam que os habitantes locais fizessem as suas ofertas.
  • Intercâmbio cultural. Através das relações comerciais, os fenícios tornaram-se portadores de cultura entre as diferentes regiões. Com seu contato constante, favoreceram a difusão e mutação de diversas tradições culturais.

Referências

  • Liverani, M. (1995). Los fenicios. El antiguo Oriente. Historia, sociedad y economía. Editorial Crítica.
  • Blanco Frejeiro, A., González, C. y Schubart, H. (1985). Los fenicios. Cuadernos De Historia 16 (Vol. 1).
  • Wagner, C. G. (1989). Fenicios, Historia del mundo antiguo. Oriente. (Vol. 9). Ediciones AKAL
  • “Fenicia” em Wikipedia.
  • “Pueblos fenicios” em Mundo Antiguo.net.
  • “Los fenicios, origen y evolución, sociedad, economía, religión” em Historia y Biografías.
  • “Fenicios” (video) em Educatina.
  • “Did the Phoenicians ever exist?” em Haaretz.

Como citar?

As citações ou referências aos nossos artigos podem ser usadas de forma livre para pesquisas. Para citarnos, sugerimos utilizar as normas da ABNT NBR 14724:

KISS, Teresa. Fenícios. Enciclopedia Humanidades, 2023. Disponível em: https://humanidades.com/br/fenicios/. Acesso em: 28 fevereiro, 2024.

Sobre o autor

Autor: Teresa Kiss

Professora de História do ensino médio e superior.

Traduzido por: Cristina Zambra

Licenciada em Letras: Português e Literaturas da Língua Portuguesa (UNIJUÍ)

Data da última edição: 18 julho, 2023
Data de publicação: 29 junho, 2023

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